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Célia Claudina
2012/15/02 10:12
NAMPULA - Planeamento familiar é prioridade*
Quarta-Feira, 15 de Fevereiro de 2012:: Notícias
A província de Nampula precisa de adoptar, rapidamente, um plano visando expandir os serviços de planeamento familiar a toda a população daquela região setentrional, com vista a estabilizar ou reduzir os actuais índices de crescimento humano, estimado em 2,6 por cento anuais.
Entendidos na matéria afirmam que, caso isso não ocorra, o impacto desse incremento pode se traduzir na necessidade do reforço dos recursos financeiros alocados pelo governo central para prover serviços básicos, sobretudo de abastecimento de água, Saúde e Educação, além de influenciar a redução da disponibilidade de terra para fins agrários, uma situação que poderá gerar conflitos pela sua posse.
No encontro havido na semana passada, e promovido pelo governo de Nampula, para discutir com os parceiros e organizações da sociedade civil, os mecanismos mais adequados visando melhorar as coberturas de planeamento familiar da província, foi apontado que se o ritmo de crescimento humano superar a actual taxa, calculada em 2,6 por cento por ano, a sua população será estimada em 9,5 milhões de habitantes nos próximos 30 anos. Actualmente, a população de Nampula está estimada em cerca de quatro mil habitantes.
Segundo Mahomed Riaz Mobaracaly, director provincial de Saúde, em Nampula, a província deve desenvolver esforços para manter a actual taxa de crescimento humano. “Se mantivermos o actual nível de crescimento, que é estável, teremos uma população estimada em cerca de sete milhões de habitantes nos próximos trinta anos” - disse.
Com uma população estimada em 9,5 milhões de habitantes, a província de Nampula vai precisar de investir cerca de cinco mil milhões de meticais, por ano, para patrocinar a abertura de 16.500 furos adicionais de abastecimento de água. Em razão da exiguidade de fundos, actualmente o ritmo de abertura de furos do precioso líquido é de 450 unidades anuais e, mesmo assim, a província se situa na cauda das regiões com baixo índice de cobertura de abastecimento de água.
Mahomed Riaz Mobaracaly referiu, ainda, que com aquele número de habitantes, a província terá que investir, anualmente, cerca de 7,5 mil milhões de meticais para financiar a construção de 750 unidades sanitárias adicionais, para garantir cuidados de Saúde à população. A rede sanitária da província é, actualmente, de 209 unidades.
A população estudantil da província de Nampula é igual ou superior ao número de habitantes de províncias como Niassa, Cabo Delgado e Inhambane, pois, no presente ano lectivo, matriculou cerca de um milhão e duzentos mil alunos, números que vão crescer em 2040, implicando maior investimento do governo visando prover educação de qualidade que se consubstancia na melhoria do rácio aluno/docente por turma.
No que concerne à terra, dados disponíveis indicam que, cada família, dispõe de um hectare em média para a prática de actividades agrárias. Se a população crescer, até atingir os cerca de 9,5 milhões de habitantes, em 2040, as famílias vão dispor apenas de meio hectare para as suas necessidades.
Mahomed Riaz apontou que o estudo não exclui a possibilidade de quea procura de recursos naturais possa gerar conflitos entre as comunidades nos próximos tempos, anotando, daí, uma implicação negativa do rápido crescimento humano na província.
A diminuição da fertilidade no seio da população sexualmente activa representa maior disponibilidade de recursos por parte do Estado que passará a investir, cada vez mais, na melhoria dos níveis de oferta de serviços básicos, nomeadamente de água potável, saúde e educação. Através de programas contínuos estimula, por outro lado, a urbanização e a construção de infra-estruturas públicas para o usufruto da população entre outros ganhos, segundo resultados de pesquisas levadas a cabo.
O Presidente do Comité Provincial de Auditoria de Mortes Maternas, o gineobstetra Cachimo Mulina, referiu naquele encontro que a província de Nampula tem de avançar, rapidamente, na expansão dos serviços de planeamento familiar, desde a unidade sanitária de referência, passando pela comunidade, culminando ao nível da família, sendo que os profissionais da Saúde, incluindo activistas, devem levar consigo mensagens com conteúdos simplificados sobre a utilização dos mecanismos de prevenção da gravidez.
Actualmente, o Sistema Nacional de Saúde, dispõe de quatro métodos contraceptivos, nomeadamente a pílula, injecção de depoprovera, dispositivo intra-uterino, incluindo preservativos masculino e feminino, além os implantes, um novo modelo que está em fase de divulgação.
Cachimo Mulina, que igualmente exerce o cargo de director do novo hospital geral de Nacala-Porto, instou a todos os parceiros que operam na província para se juntarem aos esforços do governo na componente dos recursos financeiros, humanos e meios circulantes, entre outros, no sentido de promover o aumento da disponibilidade e qualidade de serviços de planeamento familiar e contracepção no seio das comunidades.
“O Sistema de Saúde deve adoptar mecanismos para reforçar o sistema de gestão, logística, monitoria e avaliação dos serviços de planeamento e contracepção. Isto é, temos que ter a garantia que as famílias estão a usar os mecanismos disponíveis para planear quando e quantos filhos querem ter, o espaçamento entre os filhos e explicar as desvantagens de ter mais de três filhos para a saúde da mulher e da própria criança”- observou o orador.
Abordando sobre as implicações do planeamento familiar, Cachimo Mulina referiu que existem apenas aspectos positivos, ou seja, o forte contributo daquele método para a redução da mortalidade materna, melhoria da saúde infantil e das condições e opções da vida da mulher, em particular, para decidir sobre o seu futuro para o prosseguimento da sua formação académica, que abre maior oportunidade de acesso a bom emprego, que é um indicador de melhoria dos níveis de qualidade de vida da sua família.
A contracepção não tem como alvo apenas a mulher mas também abrange os homens. Segundo Cachimo Mulina, os adolescentes e jovens, incluindo pessoas vivendo com o HIV/SIDA, fazem parte do grupo que deve observar, com seriedade, as questões relacionadas com o planeamento familiar.
Referiu que, a taxa de prevalência de uso dos métodos de planeamento familiar na província situa-se em cerca de 14 por cento desde o ano 2003 a esta parte, havendo necessidade de concentrar esforços para o seu incremento até 25 por cento, em 2014.
Cerca de 260 mulheres, num universo de cerca de 20 mil grávidas, morrem por ano durante a gravidez
Cerca de 260 mulheres, num universo de cerca de 20 mil grávidas, morrem por ano durante a gravidez ou no momento do trabalho do parto na província de Nampula. Apesar de não constituir a maior entre as 11 províncias, o sector da Saúde, em Nampula, considera que a taxa é ainda alta. A sua redução depende, em parte, da adopção pelas famílias dos métodos de planeamento familiar disponibilizados pelo Sistema Nacional de Saúde.
Dados revelados no encontro de Nampula referem que, as faixas etárias que registam maiores taxas de mortalidade materna são dos 15 aos 19 anos e dos 40 anos aos 49. Isto significa que os adolescentes continuam a engravidar-se sem, contudo, reunir condições físicas e de saúde para gerar um ser vivo. Adicionalmente, segundo foi avançado, as pessoas em idade superior aos 40 optam por fazer filhos quando o seu estado aparentemente já se apresenta débil.
Foi salientado o aparecimento, na província, de crianças entre os 10 e 14 anos de idade que engravidam e geram outras crianças, facto que tem implicações para as comunidades, pois, a morte das mães menores representa o acréscimo da responsabilidade do governo para garantir o sustento dos órfãos até ingressar no ensino e encontrar uma oportunidade de emprego ou trabalho para o seu auto-sustento.
O sector da Saúde contabilizou, ao longo do ano passado, nas suas unidades sanitárias espalhadas pela província, um total 9350 partos por parte de raparigas com menos de 17 anos de idade. O distrito de Moma, o mais populoso da província, com 21 distritos, é o que mais se destaca nesta situação.
A rede sanitária da província de Nampula é composta por 209 unidades para servir uma população estimada em 4.5 milhões de habitantes. Estes dados concluem que uma unidade está para atender cerca de 22 mil utentes, contra 10 mil, de acordo com a recomendação da Organização Mundial da Saúde.
Os representantes das organizações da sociedade civil que marcaram presença no encontro provincial sobre planeamento familiar, em Nampula, defenderam, unanimemente, para a necessidade de o governo e seus parceiros empenhar-se, ainda mais, no sentido de promover a expansão da rede sanitária, pois, entendem que a demora no atendimento, constitui uma razão para que as famílias deixem de procurar conselhos médicos nas unidades em funcionamento.
As estradas, no interior dos distritos, apresentam-se em condições de difícil transitabilidade em razão do seu estado precário, sobretudo na época chuvosa, em que o trânsito fica praticamente interrompido. Este é outra inquietação apresentada na circunstância pelos convidados e, apoiando-se dos factos que vivem nas suas comunidades, reafirmaram que os índices da mortalidade materna, dificilmente podem recuar se melhorias não forem operadas no capítulo das estradas.
Comprometem-se a contribuir nos esforços visando a remoção da consciência daqueles que defendem que fazer mais filhos é bom para ajudar a família a sair da pobreza devendo contar, para tal, com o trabalho que for desenvolvido pelos filhos do sexo masculino e das raparigas casadas.
Outro aspecto sócio-cultural negativo que inquieta as autoridades comunitárias, religiosas, parteiras tradicionais e alguns académicos, relaciona-se com o facto de ainda existirem mulheres com idade considerada avançada para gerar filhos que ainda continuam a engravidar, com a alegação de que é obra de deus e que não podem recusar por temer castigo.
*fotos da RECAC