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12 de Outubro: Um tributo aos professores

HOJE É 12 de Outubro, dia consagrado aos professores. É uma ocasião para, mais do que festejar, reflectir sobre o papel destes formadores do homem do amanhã, no nosso País, muitas vezes, em condições deveras preocupantes: porque não pensar num tributo a todos os professores?

É dentro desse contexto, aconteceu no princípio deste ano, mas cai bem hoje, por ocasião do Dia Nacional dos Professores. O exemplo a seguir é de facto merecedor de louvor e teve lugar, em Cabo Delgado. Sexta-feira, 7 de Janeiro. A vila-sede de Balama, 260 quilómetros a sul de Pemba, estava vestida doutra maneira, as instituições públicas meio abertas, o movimento era desusado, sobretudo por quem vinha dos distritos vizinhos de Namuno e Montepuez e outros da cidade de Pemba, tudo porque dois “alunos primários” queriam homenagear os seus primeiros professores.

Leonardo Alcines Fernando Mualia e Jacinto Fernando Mualia, são irmãos, naturais daquele distrito meridional, conhecido como jazigo do ouro branco, em Cabo Delgado. Concluíram os seus cursos de licenciatura, o primeiro em Direito e o outro em ensino de Matemática, nas Universidades Católica, em Nampula, e Pedagógica, em Maputo, respectivamente.

Quiseram dar tributo aos seus primeiros professores de um nível que desapareceu logo a seguir à independência, a pré-primária, actualmente com informações de que possa vir a ser retomado.

Nada melhor do que voltar às origens, localizá-los, porque ainda vivos, e fazer a festa que teve um significado que pode ser aproveitado de muitas maneiras, desde o alcance mobilizador, o carácter culturalmente profundo, o elemento político que encerrou e, acima de tudo, o pormenor educativo que transportou.

Simples, mas muito concorrido, o evento teve duas fases importantes: cerimónias tradicionais e a explicação, pelos promotores da iniciativa, da razão porque assim pensaram e a parte política em que o Governo interveio para agradecer o gesto dos “alunos primários” que de tão inteligentes, fizeram o que ainda não havia sido feito naquela região, e não só!

Os dois são filhos de um régulo do distrito, já falecido, e por aí, não se esqueceram de convidar aquele que sucedeu o seu pai, Mualia, mais um outro de nome Matique, acompanhados pela respectiva rainha que, no fundamental, durante a “makeia” (cerimónia tradicional de farinha oferecida aos espíritos dos antepassados) agradeceram o gesto destes por terem propiciado que aqueles dois filhos de Balama, depois do que hoje são, fossem iluminados a ponto de não se esquecerem do seu passado.

“Rogamos que haja mais filhos de Balama a atingir ou ultrapassar o nível destes dois. Que tenhamos também ministros naturais de Balama. Que tenhamos governadores e administradores desta terra”, dizia o líder tradicional Matique.

Por seu turno, Mualia, depois de manifestar a sua satisfação e desejo de que os “nossos filhos tenham nome, ainda que não seja nesta mesma terra, mas sim nos outros pontos do país” disse também para que não se vangloriassem por terem conseguido o grau académico que atingiram, porque doutores há muitos, há mais gente nesta terra.

“Há muita gente que estudou, o respeito às pessoas e às suas tradições é outro estudo que são obrigados a concluir e é permanente, gostaríamos que os mais novos seguissem o vosso exemplo de nunca perder de vista as origens! Mas, atenção ao álcool, que às vezes faz bem, mas muitas vezes estraga jovens ou adultos, interrompe os planos de famílias e leva as pessoas à frustração”.

AS RECÇÕES

Regina Ernesto é directora dos Serviços Distritais de Educação, Juventude e Tecnologia de Balama, um distrito que à altura da presença da nossa Reportagem estava à procura de alunos para preencher as vagas da oitava classe e a preocupação residia no facto de terem sido graduados 688 alunos da sétima classe, mas até àquele momento, quando faltava menos de uma semana para o fim das matrículas, apenas 182 haviam sido inscritos.

Era pouco crível que os restantes 506 fossem matriculados numa semana, deixando a ideia de que se esperava um grande desperdício no sentido de que muitos alunos haveriam de parar na sétima classe, concluída no ano lectivo transacto.

“Se calhar há-de ser porque os pais não têm dinheiro para matricular as crianças, mas vamos ter que nos debater com um grande problema, são muitos os alunos que não estão a matricular na oitava classe”, diziam à margem.

Mas indo directamente ao evento dos Mualias, Regina Ernesto disse publicamente ter ficado muito satisfeita porque “esta cerimónia toca o nosso sector, a homenagem surge para reconhecer o nosso sector, a Educação, é o exemplo vivo de como o Homem pode ser transformado até chegar ao nível em que estes senhores doutores chegaram”.

A administradora do distrito de Balama, Elsa Rodolfo, por sinal uma professora de profissão, disse que o que se estava a assistir era a concretização da ideia de que a educação é a vela que ilumina as mentes. Que se estava perante filhos de mãe simples, por sinal viva e presente na cerimónia, camponesa como camponês era o pai.

“Não iam à escola de carro, mas hoje vieram com os seus carros, não levavam nenhum lanche que não fosse a mandioca seca, mas hoje vão vos servir um almoço. Olhem para este bonito exemplo! Alguns aqui não se lembram dos nomes dos seus primeiros professores, eles vieram render homenagem aos seus professores da pré-primária”, disse Elsa Rodolfo.

Adiante, a administradora de Balama disse que hoje há muitas chances de estudar do que no tempo deles, se bem que na escolaridade obrigatória as matrículas e livros escolares são gratuitos.

Virando-se para os professores homenageados, Elsa Rodolfo disse que a tarefa de educar ainda não tinha terminado, razão porque ainda eram chamados a apoiar o sector da Educação, que mais do que nunca precisa dos homens com experiência.

“Contamos com o vosso apoio, com a vossa contribuição, senhores professores! Ainda temos muitos problemas na Educação, sobretudo na da rapariga. Também contamos com o apoio dos senhores doutores para o desenvolvimento do nosso distrito”, apelou.

Não contávamos com esse reconhecimento

Visivelmente emocionados, os dois professores, depois de receberem das mãos dos seus “alunos pimários” uma bicicleta cada, disseram nunca terem esperado que um dia um dos seus alunos, dos longínquos anos 70, fosse capaz de se lembrar deles, sobretudo da maneira como os Mualias fizeram, se bem que, mesmo eles não se lembram de todos os alunos que pelas suas mãos passaram.

Frederico de Freitas Marapaz, 66 anos de idade, professor do dr. Jacinto Fernando Mualia, disse mesmo que não sonhava “por isso vejo isto como se se tratasse de um milagre” e agradece a Deus e a todos aqueles que iluminaram os seus antigos alunos a pensarem como agiram.

“Aliás, costuma-se dizer que quem põe uma boa semente num terreno fértil, espera boa colheita”, filosofou para caracterizar o Jacinto de há mais de 30 anos: pontual, meio tímido, mas sempre com boas notas, tal como disse que bem sabia que o outro também era assim.

Questionado sobre as causas que fazem com que a qualidade de ensino hoje esteja a ser posta em causa, principalmente porque os alunos atingem níveis muito altos sem saberem ler nem escrever correctamente, o professor Freitas disse:

“Hoje não se ensina o alfabeto, quer dizer, não se alfabetiza no próprio sentido, que devia ser o primeiro passo, para quem, como os nossos filhos, entram pela primeira vez em contacto com a Língua Portuguesa, não há outra saída, senão alfabetizar, assim como, em relação à Matemática, deve-se voltar a começar pela aritmética”.

O professor de Leonardo Mualia, hoje com 65 anos de idade, disse ter ficado emocionado pela honra que o seu antigo aluno lhe reservou. Acha ser um grupo de irmãos que foi pioneiro nesse tipo de homenagem, um gesto que acredita ser um bom ensinamento e que deveria ser seguido por outros da geração deles e pelas vindouras.

Em resposta ao convite da administradora distrital, sobre o apoio que, apesar de reformado podem dar à Educação, Silvestre dos Santos Aquica, mostrou-se pronto a fazer, desde que as modalidades sejam bem definidas, para evitar a intromissão, se calhar inconveniente, no sistema.

“Podemos, mas é preciso que as coisas sejam bem feitas para evitar pensar-se que somos uns sabichões e aí criarmos problemas com os nossos actuais colegas, ora a trabalhar”.

Como nasceu a ideia destes dois “alunos”?

Segundo Leonardo Mualia, mais velho que Jacinto, 48 anos de idade, actualmente juiz do Tribunal Judicial Provincial de Gaza, a ideia de homenagear aqueles professores vem de longa data, faltava era a oportunidade.

“Era uma dívida da nossa própria consciência e com esse gesto quisemos transmitir a necessidade de promover o ensino, agora com mais ênfase para a educação da rapariga, a valorização das nossas bases, da nossa história. Esses senhores comparámo-los a um “Caterpillar” que destroncou a estrada pela qual nós passamos até atingir o nível em que nos encontramos hoje”.

Os dois irmãos têm um percurso coincidente em muitas passagens da sua vida. Todos começaram a estudar nos anos 70, nem se lembram exactamente, (“quem éramos nós”, perguntam-se) e que depois de saírem da Escola Primária de Maco, há 25 quilómetros da sede distrital de Balama, foram para a Missão de S. Francisco Xavier, no mesmo distrito, onde terminam a quarta classe e concluíram a sexta classe em 1980.

De 1981/83, ambos vão para a Escola Agrária de Bilibiza, distrito de Quissanga, naquilo que seria a sua primeira deslocação ao sul da província, sendo que Leonardo calha para o curso de Agro-Pecuária e o Jacinto o da Mecanização Agrícola.

Em 1984, o mais novo, deixa por um ano Leonardo, porque este não teve colocação. Na verdade, Jacinto ingressa no Instituto Pedagógico Industrial de Nampula, que conclui em 1986, enquanto o mais velho, depois de um ano sem nada fazer, encontra um furo, de um curso de magistratura judicial, que termina em 86, ano em que, por sua vez, Jacinto é recrutado para o Serviço Militar Obrigatório, tendo ficado afecto na Casa Militar, donde só saiu em 1993.

Leonardo Mualia, depois do curso fica juiz, primeiro de Namuno, onde ficou 10 anos, ao que se seguiu a sua transferência para o distrito de Montepuez. O Jacinto, cumprido que havia sido o serviço militar, em 1994, emprega-se numa empresa de prestação de serviços, no mesmo ano em que termina a sua relação contratual.

Em 1995 até aos nossos dias, Jacinto Mualia é professor da Escola Secundária Josina Machel e foi dando aulas que fez a UP, ensino de Matemática, entre 2005/2008.

Um ano antes, o seu irmão mais velho havia feito a licenciatura em Direito, porque, afinal, em 2002, saíra de Montepuez para fazer a faculdade na Universidade Católica, em Nampula, depois do que foi colocado no distrito de Cuamba, província do Niassa. Lá trabalhou durante um ano, 2008, antes de ser transferido para Gaza, onde ainda se encontra.

Este exemplo devia ser seguido, para o reconhecimento de milhares de professores anónimos espalhados por este país, que dão o melhor de si, em condições não apropriadas, muitas vezes, mas que o seu contributo não é reconhecido por ninguém.