Menu superior

Home > Na Imprensa > Beira: Violação sexual ganha terreno...

Beira: Violação sexual ganha terreno entre estudantes

PARECE que a moda pegou na cidade da Beira. Estudantes de algumas escolas secundárias locais, nomeadamente Samora Moisés Machel e Mateus Sansão Mutemba, têm sido acusados de violar sexualmente em grupo as suas colegas, o que já está a inquietar as autoridades policiais na capital provincial de Sofala. Os casos já tornados públicos tiveram lugar em residências de um dos alunos e depois de mais uma sessão de estudo, sendo os violadores sempre em números que variam de três a quatro.

Ao que se sabe, alguns alunos têm persuadido as suas colegas de turma para estudo em grupo na residência de um dos colegas, maioritariamente filhos de pais separados. Depois da resolução dos trabalhos escolares a rapariga é violada sexualmente, num acto protagonizado por três ou mais colegas seus. Enquanto um executa a cópula, outros procuram imobilizar a visada e fazer a filmagem do acto com recurso a telemóvel.

Não se sabe ao certo qual tem sido a finalidade das filmagens, mas os responsáveis do Gabinete de Atendimento à Mulher e Criança Vítimas de Violência Doméstica no Comando Provincial da República de Moçambique (PRM) em Sofala, que denunciaram os casos, dizem que decorrem investigações para compreender melhor o fenómeno.

“A sociedade surpreende-nos sempre com novos fenómenos, protagonizados sobretudo por jovens e adolescentes e nós estamos muito preocupados com isso. Por essa razão, já estamos a traçar estratégias para compreender melhor este facto. Temos um plano de sensibilização deste grupo/alvo para que abandone este tipo de prática porque isso é muito triste. Já imaginou jovens em bicha pegarem na colega e violarem enquanto outro filma? Isso é desumano”, sentenciou a chefe do Gabinete de Atendimento à Mulher e Criança Vítimas de Violência Doméstica em Sofala, Maria Odete Ibraimo.

Odete Ibraimo disse que a acção de combate a este mal passa pelo envolvimento de outros subsectores da Polícia da República de Moçambique e do Conselho Municipal da Beira, bem como de alguns líderes influentes nas comunidades.

“Este tipo de violência é um problema do Estado, por isso temos que encontrar uma plataforma de resolvê-lo. Fazermos perceber aos adolescentes e jovens que isso não é correcto. Dos casos que nos chegaram dois são das escolas secundárias, nomeadamente Samora Machel e Sansão Muthemba. Tivemos um caso aqui na Ponta-Gêa. E agora temos que ir aos bairros compreender melhor o fenómeno. Mas o que já percebemos é que a maior parte dos que se envolvem neste tipo de casos são estudantes, cujos pais estão separados”, explicou.

DROGAS: UMA DAS CAUSAS

O último caso do género reportado na cidade da Beira é de uma rapariga de 14 anos, em que os resultados preliminares das investigações policiais apontam o consumo de drogas como uma das possíveis causas destes actos criminosos.

“A menina disse-nos que um dos violadores estava a fumar droga. Por isso que estes actos podem estar relacionados com o consumo de estupefacientes”, disse Ibraimo.

Para já há relatos que asseguram que adolescentes de algumas escolas da cidade da Beira têm vendido drogas justamente no recinto escolar. Normalmente os referidos estupefacientes são transportados em mochilas usadas para albergar material escolar.

O negócio tem sido efectuado de forma muito sigilosa e é por encomenda. Por isso a PRM tem enfrentado imensas dificuldades para seguir as suas pistas. Mas a verdade é que o negócio já está a ganhar contornos alarmantes nas escolas secundárias da cidade da Beira.

“Alguns têm fumado droga no recinto escolar, por detrás do edifício principal. Depois vêm ameaçar os colegas. Obrigam-nos a trazer dinheiro ou outras coisas, sob pena de nos bater”, disse um dos estudantes da Escola Secundária Samora Machel, identificado pelo nome de Edson António.

O estudante Enoque Gabriel, de 14 anos, expressou-se no mesmo tom. Disse que para o caso de alunos que consomem drogas no recinto escolar a direcção da escola poderia muito bem evitar o fenómeno com o aumento de efectivos de seguranças porque, segundo acrescentou, alguns dos estudantes marginais são provenientes de outras escolas.

“Alguns são de fora da escola. Os (alunos drogados) daqui é que indicam que este ou aquele colega tem muito dinheiro e depois mandam os seus companheiros estranhos para o ameaçarem. Por isso, acho que a direcção da escola deveria melhorar o controlo aumentando o número de seguranças e serventes, porque corremos perigo. Estamos com medo. Mas nós, os alunos, já denunciamos à direcção casos de colegas que fumam droga aqui”, revelou o petiz.

Já a estudante Anabela Flora Santiago, da 9ª classe, também na Escola Secundária Samora Machel, indicou que a maior parte de casos de consumo de drogas no recinto escolar acontece às segundas-feiras.

“A resolução deste problema deve envolver os pais e/ou encarregados de educação, porque o professor e a direcção da escola sozinhos não podem conseguir. Este tipo de comportamento parte de casa. Por isso acho que alguns encarregados podem ter culpa no meio disto tudo. Além disso, tem que se rever o horário do período da tarde, pois esta coisa de sairmos às 19.00 horas é muito arriscado”, afirmou Santiago.

A adolescente Rabia Dinis, da Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba, sugere igualmente que a colaboração dos pais e/ou encarregados de educação na resolução do problema é fundamental.

“Há regras estabelecidas na escola. Então, quem perturba o ambiente deve ser penalizado. Não podemos admitir este tipo de comportamentos aqui na escola”, referiu Rabia Dinis, uma opinião partilhado por Suzana Isabel Gimo, da Escola Secundária Samora Machel.

“Na minha turma temos um moço que só vai às aulas nos dias de avaliação, mas sabemos que ele fuma droga. Às vezes ameaça os outros. Para este tipo de casos a direcção da escola pode falar com o encarregado de educação, pois a educação parte de casa. Se ele se comporta mal na escola é porque não é educado em casa. Os pais podem ajudar a escola a resolver este problema”, admitiu Suzana Isabel Gimo.

ÁLCOOL E FILMES PORNOGRÁFICOS

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas e a vulgarização de filmes pornográficos pode estar igualmente por detrás destes actos violentos. Frequentemente muitos estudantes consomem álcool nas barracas próximas dos seus estabelecimentos de ensino para posteriormente protagonizarem actos violentos, que incluem tentativas de agressão física.

“Às vezes eles vão beber nas barracas ao lado da escola trajados de uniforme. Alguns tiram uniforme e escondem-no nas pastas escolares e depois de consumirem álcool voltam para a escola e quando encontram meninas às vezes apalpam-lhes as nádegas e fazem outro tipo de ameaças. Isso não é bom, deixa-nos com medo. Acho que a direcção da escola deveria contactar o município para que seja proibida a construção de barracas junto às escolas”, sugeriu Anabela Flora Santiago.

Sobre este último pronunciamento, o substituto do director da Educação, Juventude e Tecnologia da cidade da Beira, Arnaldo Cipriano, disse que o encerramento de barracas nas proximidades das escolas não combaterá em definitivo o problema. Alegou que a melhor forma de eliminar este mal é consciencializar os protagonistas sobre o perigo desta prática.

“Tem que haver consciência nos alunos, fazer perceber que este acto é imoral. Não basta aumentar o número de guardas, porque as violações podem acontecer fora do recinto escolar. Temos o exemplo da Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba que não tem barracas muito próximo, mas é o estabelecimento de ensino com mais casos de violência protagonizados por alunos em estado de embriaguez”, afirmou Arnaldo Cipriano.

A chefe do Gabinete de Atendimento à Mulher e Criança Vítimas de Violência Doméstica em Sofala, Maria Odete Ibraimo, defende igualmente que os encarregados de educação têm um papel fundamental, mas ressalva que o Estado deve tomar a dianteira no combate a este mal.

“A vulgarização de filmes pornográficos pode estar a influenciar os adolescentes a cometer estas violações. Por isso, o envolvimento do Conselho Municipal, do Instituto Nacional de Cinema e da PRM é fundamental no combate ao fenómeno, porque a projecção de filmes pornográficos é regulada e é com estas instituições que vamos evitar que os filmes em causa sejam projectados de qualquer maneira”, afirmou Ibraimo.

MEDIDAS SEVERAS PARA OS PREVARICADORES

Tanto o sector da Educação, Juventude e Tecnologia da cidade da Beira como os estudantes defendem a tomada de medidas severas contra os prevaricadores para evitar que o fenómeno ganhe espaço, quer nos estabelecimentos de ensino onde já foram notificados os casos como noutros locais. Com efeito, os nossos entrevistados sugeriram a expulsão de alunos consumidores de droga e/ou os que violam sexualmente as suas colegas.

“A solução para este tipo de casos passa pela expulsão porque este tipo de pessoas não merece conviver com outros alunos. Expulsando os que violam as colegas estaremos a chamar atenção aos outros para que não sigam o mesmo caminho. A direcção da escola precisa de ser muito dura para com estes marginais, porque vão nos criar desgraça, fazendo com que os colegas tenham medo de ir à escola”, defendeu um dos estudantes da Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba, identificado pelo nome de Armindo Manjate.

A fonte da Direcção da Educação, Juventude e Tecnologias, Arnaldo Cipriano, considerou também que muitos destes casos podem ser resultado de muita tolerância por parte de alguns professores perante pequenas infracções que hoje já se transformaram num “cancro”.

“Há escolas que não conseguem eliminar situações elementares e a criança vai crescer pensando que isto ou aquilo é normal, quando estamos perante comportamentos anormais. Mais tarde um pequeno erro do passado transforma-se num grande problema, como este que estamos a testemunhar” – disse Cipriano.

Apesar de defender que os pais têm um papel-chave na resolução do problema, Cipriano é de opinião que as escolas devem fortificar medidas que possam devolver a moral no seio da comunidade estudantil, facto que permitirá uma formação completa dos discentes.

“O que vale ter uma pessoa cheia de conhecimentos académicos mas mal-educada? Não basta transmitir conhecimentos científicos aos nossos alunos. É preciso dotá-los de valores morais para evitar situações dessas”, sublinhou o nosso interlocutor.