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Diário dos sobreviventes da “Ilha”

Terror, mau cheiro, lixo e cenário de abandono, é o que caracterizam o lugar conhecido por “ilha”, mas que os seus sobreviventes preferem chamar por “escuro”. Estamos a falar da ruína que fica na esquina entre as avenidas 25 de Setembro e Samora Machel, na zona baixa da cidade de Maputo.

“Vivo aqui desde há muito tempo, vim ainda criança. Antes morava no bairro Hulene, aqui em Maputo”.

Sandinho tem mais ou menos 17 anos de idade, é adolescente e é o um dos mais novos moradores da ruína. Disse que viveu no bairro de Hulene, arredores da cidade de Maputo, tal como a maioria dos outros moradores daquele local, mas não teve esta alternativa pela simples ambição de viver na cidade.

“Vivo na ‘Ilha’ porque abandonei a casa onde morava com o meu pai e a minha madrasta. Esta maltratava-me, não me dava de comer, batia-me e quando dizia ao meu pai não acreditava e pouco se interessava e nem sequer me deixava ir a escola. A minha mãe e o meu pai separaram-se na altura. Ela passou a viver no bairro Luís Cabral, na zona da Maquinag”.

Uma dura realidade encarada com sacrifício no quotidiano.

“Para poder sobreviver aqui, peço esmola, nos semáforos, ou faço pequenos trabalhos e depois me pagam. É assim que conseguimos algo para comer no dia-a-dia”.

Sandinho, conta-nos as actividades dos outros moradores que ficam no primeiro andar da ruína, quando amanhece, embora, outros façam trabalhos de noite.

Segundo Sandinho, os mais adultos, rapazes, vendem cerveja, “W-Panch”, tentação e outras bebidas. As mulheres fazem outros serviços. Na maioria somos de Hulene, mas nem todos.

Sandinho não é o único menor que mora naquele local, o outro é uma criança de 11 anos de idade que vivia no bairro da Matola “A” com o seu pai e conta-nos que saiu de casa porque o seu pai quando possuído por bebidas alcoólicas, o batia.

“Sai de casa porque o meu pai batia-me quando ficava bêbado. A minha mãe faleceu eu ainda muito novo. Agora tenho 11 anos e na altura, deixei de estudar na terceira classe”. Conta-nos o petiz com voz rouca, sinal de tristeza ao lembrar os episódios dramáticos que relata ter vivido.

O seu pai, cujo nome, apesar de nos ter revelado, não vamos citar, vive agora na zona da CMC e este garante-nos que conhece a casa.

“Peço dinheiro, nos semáforos ou nos mercados para poder comer e quando chega a noite durmo em frente do Continental.