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Drama e desespero dum homem: Pai à deriva com bebés gémeos

ALCINA João é uma mulher que não mais pertence ao mundo dos vivos. Em vida dedicou parte do seu tempo trabalhando a terra em Gaza e a fazer pequenos negócios para contribuir no sustento dos seus filhos.

Assim era, uma vez que o seu marido sempre esteve a trabalhar na capital do país. Enquanto travava a batalha pela sobrevivência teve também sete rebentos, dois dos quais com dois meses de vida e votados à sua sorte, uma vez que ela sucumbiu de complicações pós-parto. Como o azar nunca vem só, o viúvo de Alcina, Albino Ernesto, disse-nos que um pouco antes da morte da esposa foi despedido da construtora portuguesa Soares da Costa, onde trabalhava como pedreiro. Parte do valor da indemnização serviu para custear as despesas do funeral da esposa e sustentar os novos membros da família que muitos cuidados exigem, para além de outros irmãos em idade escolar. Até ao dia de ontem já não tinha mais leite para alimentar as crianças.

Encontrámo-lo à saída do Centro de Saúde de Xipamanine, para onde se deslocou a fim de proceder ao controlo rotineiro do peso dos seus bebés, bem como à primeira vacinação referente ao segundo mês de vida.

Edilson Albino Ernesto e João Albino Ernesto são os gémeos órfãos da senhora Alcina, agora com um peso de 4.800kg e 4.200kg, respectivamente. Até a manhã de ontem, por volta das 10.00 horas, tinham tomado apenas uma mamada às seis horas. Na altura da nossa conversa o pai não dispunha de um biberão sequer para manter os gémeos durante o período que se mantivesse naquela unidade sanitária.

Sobre o sustento dos filhos, tendo em conta a sua situação de desempregado, Albino Ernesto disse que pediu apoio a várias entidades ligadas ao apoio social, incluindo infantários, pois revela-se cada vez mais difícil “remar” com menores naquela idade e na sua condição. A resposta do momento veio da Acção Social que tem disponibilizado leite. A última ajuda que teve daquela instituição foi na quinta-feira, em que recebeu duas latas de leite Nan1. “Mas duas latas não são suficientes para eles. Disseram-me para voltar uma semana depois, mas pela frequência das mamadas esta quantidade revela-se pouca. Eles consomem uma lata em dois dias. Veja só que de quinta-feira para cá já acabaram e hoje, a última vez que tomaram leite foi às seis horas”, disse.

Para se movimentar de casa para o Centro de Saúde o pai dos petizes contou ontem com o apoio de um primo que deixou os seus afazeres em jeito de solidariedade. Para além destes gémeos, a malograda deixou outros cinco filhos, entre os quais outro par de gémeos, que já frequenta a sétima classe. “Quis o destino que terminasse assim, deixando estes gémeos com apenas alguns dias de vida”, consola-se Ernesto, um homem desesperado.

Segundo o viúvo, residente no bairro de Chamanculo, Alcinda João encontrou a morte depois de ter dado à luz num parto não institucional.