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A caminho da reforma, depois de um longo percurso de docência, caracterizado por um misto de sentimento de dever cumprido, de orgulho por ter contribuído, ao longo de muitos anos, para a formação de quadros competentes e qualificados, alguns dos quais desempenhando cargos de prestígio na esfera política e socioeconómica no país, mas também de alguma frustração pela tendência decrescente da qualidade do ensino.
Atribui este facto, por um lado, à superlotação das turmas, falta de bibliotecas e de laboratórios, venda de notas e, mais grave ainda, pela clara tendência da ocorrência de cada vez mais casos de assédio sexual às alunas nas escolas, um pouco por todo o país, protagonizado pelos próprios professores.
Estamos a falar da professora Luciana Chaúque, que, muito recentemente, concedeu uma entrevista ao nosso Jornal.
Em 1978, numa altura em que os ventos fortes da chamada geração 8 de Março sopravam um pouco por todos os cantos do nosso país, eis que uma jovem de tenra idade, entre 18 e 19 anos de idade, decide interromper os estudos e deixar para trás a sua pacata comunidade de Malehice, distrito do Chibuto, para responder ao chamamento da Pátria, abraçando o professorado, na qualidade de monitora da disciplina de Geografia, na Escola Secundária do Chókwè, onde viria a trabalhar durante três anos.
Não pesou, na altura, o preconceito de ser mulher, daí que foi aceitando à medida das solicitações e das necessidades do momento transferências sucessivas que a fizeram trabalhar em Machulane, no interior do distrito de Mandlakazi, Chókwè e, desde 1981, definitivamente na Escola Secundária do Tavene, onde trabalha há sensivelmente 20 anos.
A professora Luciana deixou-me bastante impressionado pela sua capacidade de, facilmente, exteriorizar o que lhe vai na alma, sem rodeios nem meios termos. Ela tem alguma nostalgia do passado recente por si trilhado como docente, pois, não obstante ter trabalhado com algumas dificuldades de ordem conjuntural, designadamente o exercício da profissão em plena guerra dos 16 anos, terminada em 1992, e a crónica falta de meios de trabalho, segundo ela, o rendimento pedagógico era relativamente melhor que nos tempos que correm.
Aliás, ainda na esteira das dificuldades vividas nessa altura, mas que em nenhum momento puseram em causa a determinação e entrega dos professores, Luciana Chaúque recorda-se da sua retirada, dos alunos e de outros colegas de trabalho da localidade de Machulane para a sede do distrito de Mandlakazi, devido aos ataques protagonizados na altura pela Renamo.
“São momentos menos bons por mim vividos, e um factor que contribuiu para que muitos alunos nossos, sem grandes posses, não tivessem, na ocasião, prosseguido os estudos. Pronto, foi um momento de recordações amargas no meu percurso como docente, mas me recordo que, entre nós, não vacilámos e continuámos a manter a mesma postura de gente comprometida com a educação das novas gerações”, disse a nossa entrevistada.
Segundo ela, apesar da inexperiência na docência que caracterizava o ambiente no seio dos professores daquela época, dificuldades de ordem material, salários baixos, entre outras coisas, o facto de, na altura, se trabalhar com um número de alunos nas salas dentro de parâmetros aceitáveis, ou seja entre 35 a 50 alunos, contribuía para que o professor pudesse se dedicar com maior zelo e necessária profundidade, em prol da evolução do aluno, o que não acontece actualmente, pois, segundo ela, mesmo na escola onde trabalha, as turmas chegam a comportar entre 75 e 80 estudantes por turma.
Mais grave ainda, por carteira sentam três alunos, razão pela qual quando chega o período das avaliações individuais, parte destes são obrigados a ocupar, no chão, uma autêntica aberração, em plena capital provincial de Gaza.
A trabalhar em tão precárias condições, sem bibliotecas para consultas, sem laboratórios para a realização de aulas práticas, de acordo com a nossa fonte, falar de qualidade do ensino não passa de mera utopia.
“Infelizmente, nunca tive oportunidade de chegar a zonas como Massangena, Chicualacuala, Chigubo, mas tenho conhecimento, por via de conversas com outras pessoas, que nesses estabelecimentos de ensino a superlotação de salas de aulas, no ensino secundário, é menos preocupante e que se houvesse espaço para internamento de alunos oriundos de outros pontos de Gaza, quem sabe se dessa forma se poderia contribuir para o descongestionamento de efectivos discentes nas zonas urbanas como Xai-Xai”, sugeriu a nossa fonte.
Outra situação que torna o processo de ensino e aprendizagem menos credível é a tendência crescente do aparecimento de casos de assédio sexual de professores às suas alunas, um cenário que, segundo Luciana Chaúque, está ganhando proporções cada vez mais preocupantes, e com interferências nefastas no aproveitamento pedagógico nas escolas, sobretudo do ensino secundário.
Para a minimização do problema há que se enfrentar este dilema com realismo e muita coragem e, sobretudo, segundo a nossa interlocutora, recolocar, como era no passado, a comunidade a exercer a necessária vigilância sobre estes casos e, se já não for possível sensibilizar as pessoas, tomarem-se medidas punitivas drásticas, de modo a cortar o mal pela raiz.
“Gostaria de terminar esta conversa deixando claro que toda esta dissertação em torno do processo educativo, fi-la como uma simples cidadã e em pleno uso dos meus direitos de expressão e de opinião. Não a fiz em nome de nenhuma direcção e, de resto, onde trabalho sou uma simples professora”, referiu a nossa entrevistada.