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A cidade de Nampula está a viver uma verdadeira degradação moral. Há até crianças que se dedicam à prostituição. Durante as noites, as ruas da terceira maior cidade do país ficam repletas de miúdas que se dedicam à actividade de vender o corpo.
No passado fim-de-semana, a reportagem do Canal de Moçambique, saiu à rua para conversar com algumas daquelas menores, e ficamos a saber historias bastante chocantes. Quase todas elas nos disseram que exercem a actividade de forma hereditária.
As raparigas com quem conversamos residem, na sua maioria, nas zonas periféricas de Nampula, sobretudo nos bairros de Namutequeliua, Muhala-Belenenses, Matador, Mutauanha, Namicopo e Cavalaria.
Cada historia que acompanhamos parece ser uma réplica da outra, mas a verdade é que a situação se está a tornar cada vez mais grave, pelo menos desde há cerca de um ano e meio.
Os nomes que vamos apresentar nesta matéria são fictícios, a pedido das nossas fontes, tendo em conta que algumas delas frequentam escolas públicas e o uso do seu verdadeiro nome pode afectar a sua reputação junto dos seus colegas e amigos, que não conhecem o seu lado obscuro.
Marta Valter, estudante da Escola Secundária 12 de Outubro, nos arredores da cidade de Nampula, reside no bairro de Muhala-Belenenses, numa casa pequena e na companhia de dois irmãos também menores. São órfãos de pai e mãe deles encontra-se na cidade portuária de Nacala, onde igualmente procura ganhar a vida através do comércio sexual.
Marta, segundo nos contou, frequenta as ruas quatro vezes por semana, porque nos outros dias deve preparar lições e procura descansar. Ela disse que chega a ganhar em média, durante a noite, mil e duzentos meticais e com isso consegue pagar todas as despesas possíveis. Os rendimentos da venda do seu próprio corpo chegam para Marta adquirir os meios para uso na escola, para si e para os irmãos menores que dela dependem.
A mãe deles há muito que não manda dinheiro para despesas, mas Marta encontra justificação que a console: “Deve ser muito difícil para ela procurar algo para comer e pagar a renda da casa e mandar para nós algum dinheiro.. ela já está velha para estes serviços”.
Marta Valter diz que é triste a actividade que desenvolve para poder sobreviver e conta que “por vezes vêm pessoas muito más, usam-nos e não no pagam e acima de tudo nos ameaçam e outros até chegam a arrancar-nos o nosso pouco dinheiro”. Com lágrimas, acrescenta: “Ontem um senhor levou-me para lá na Memória (um bairro suburbano). Prometeu-me 1.500,00 meticais, e, chegado lá, ele chamou amigos dele e abusaram-me sexualmente e fui abandonada no local”.
Marta disse que “agora se torna difícil desistir, porque já estou habituada sinto falta disto, até porque já consegui comprar uma “acelera”, um congelador, televisor, leitor de DVD, amplificador e muitos outros electrodomésticos.
Na nossa digressão nocturna pelas ruas de Nampula, na cidade das “muthianas oreras”, conversamos com Lina Machado. Conta uma história ainda mais chocante. Tem apenas dezassete anos e é mãe de um rapaz de dois anos. Do paradeiro dos pais não sabe dizer, apenas sabe contar que os pais brigaram numa noite e cada um deles rumou para local que ela desconhece, deixando-a a ela e mais três irmãos menores à sua sorte.
A vida tem sido para eles um drama. Lina estuda na Escola Secundária de Nampula e frequenta a 9ª classe, mas nem sempre vai à escola, porque os irmãos nem sempre estão bem de saúde e a vida anda ao deus-dará.
Lina sai à rua “quase todos dias”, “porque as necessidades são cada vez maiores” e, não tendo outra base de sobrevivência, considera a rua como a “única alternativa”.
Estes casos não são isolados, há muitos casos semelhantes em Nampula. As autoridades, concretamente dos serviços sociais do Estado pouco ou nada fazem para alterar a situação. Pelo menos dos menores que vivem na completa dependência das suas familiares que se prostituem.