Menu superior

Home > Na Imprensa > REENCONTRO tenta travar trauma em cri...

REENCONTRO tenta travar trauma em crianças órfãs

REENCONTRO tenta travar trauma em crianças órfãs

REENCONTRO tenta travar trauma em crianças órfãs

Casa que irá albergar, em trânsito, crianças órfãs

DEPOIS da morte dos seus progenitores, o trauma tem marcado a vida de muitas crianças que, não tendo assistência psicossocial, têm, muitas vezes, caído no desespero.

É pensando neste segmento da sociedade, cujo número tende a aumentar, que a Organização Moçambicana para Apoio à Criança Órfã (REENCONTRO) está a edificar um centro na zona periférica da cidade do Maputo, para albergar meninas e rapazes nesta situação, tendo já planos para o arranque do programa de assistência no princípio do próximo ano.

O centro, segundo nos revelou a directora de Programas da Reencontro, Doroteia Balane, vai funcionar no bairro Ferroviário e a ideia é albergar 24 adolescentes que, tendo perdido ambos os pais e sem nenhum parente mais próximo, precisam de ajuda para superar o estado de choque causado pelo desaparecimento físico dos seus pais.

“Eles terão apoio psicossocial e sensibilização de forma a acreditarem que a morte dos pais não significa o fim das suas vidas. Terão sessões de moral, educação cívica e convívio com outras crianças, como forma de restaurar a esperança”, explicou Doroteia Balane.

Conta que nos últimos anos foram feitos pela agremiação todos os lobbies possíveis para que a rapariga, que é o seu grupo-alvo, tivesse um centro de acolhimento onde pudesse ser educada e protegida. Até agora trabalhava somente com as raparigas educadas pelas Irmãs Franciscanas de Maria, que também foram as formadoras das impulsionadoras desta organização.

“Infelizmente, não fomos totalmente felizes, porque algumas raparigas não estão a corresponder às nossas expectativas. Das 24 que tínhamos na Beira, oito já foram expulsas por mau comportamento. As 11 que foram à Namaacha ainda estão lá todas, felizmente, por serem ainda mais novinhas e sem aventuras de namoros. Contudo, nós não perdemos esperança e estamos decididas a avançar e a adoptar novas medidas para corrigir o que está errado no seio daquelas meninas”, disse Doroteia Balane.

Tecto para crianças

São, no total, 110 casas construídas pela REENCONTRO no Maputo e Gaza. Mas a ajuda a estes menores não termina no tecto, pois passam a beneficiar de acompanhamento diário de activistas que velam pela sua saúde, nutrição, educação e vida social. Segundo explicou a nossa fonte, há casos em que acolhemos as crianças que com a morte dos pais ficam na condição de desprotegidas. Tendo já habitação, aparecem os familiares antes inexistentes, criando, nalguns casos, embaraços na coabitação.

“Há casos concretos de crianças que antes viviam sozinhas, sem nenhum parente, mas que depois de lhes terem sido atribuída casas, reaparecem supostos familiares que depois se apropriam dos quartos deixando os legítimos donos a dormir na sala, alegadamente por serem menores e sem poder de se recusar perante tal proposta.

Para concretizar os seus projectos, a Reencontro conta com o apoio da Cross International, uma ONG religiosa baseada na América, da African Millennium Challeng Acount, da World Found For Children, também religiosa baseada na América, e da Voluntary Overseas VSO, uma ONG estrangeira.

São no total 1419 crianças assistidas pela Reencontro no Maputo cidade e província e outras 5581 residentes em diversas localidades dos distritos do Xai-Xai, Chibuto e Manjacaze.

Para a nossa interlocutora, revela-se bastante complicado lidar com menores na situação de orfandade dado os elevados índices da doença, aliados à falta de informação e à extrema pobreza. Mas, mesmo assim, “não deixamos de agir e na medida do possível conseguimos alguns ganhos. Apraz -nos ver jovens que saíram da nossa associação a realizarem actividades úteis para a sociedade”, exemplifica.

Para realizar as suas actividades nas comunidades, a Reencontro conta com 32 voluntários no Maputo e perto de 60 em Gaza, onde há cada vez mais pessoas afectadas pelo vírus da SIDA.

Um grande problema com que a REENCONTRO se confronta é o conflito de gerações, nos casos em que uma avó tem de lidar com netos que ficaram sem os pais. Quando a criança não consegue compreender a sua avó, e vice-versa, nasce um conflito entre ambos que, segundo a nossa entrevistada, pode parecer simples, mas bastante complicado, pois chega a comprometer o futuro da criança.

“Para encontrar um meio-termo na relação criança-avó, fazemos uma capacitação tanto para a avó assim como para a criança de forma a se entenderem, com a ajuda de formadores experientes na matéria”, explicou.

Um dos grandes debates da actualidade prende-se com a existência de muita informação sobre a Sida, e muitas organizações a trabalharem na área, mas continuam a existir muitos casos de infecção pelo vírus, mesmo entre jovens de tenra idade.

Sobre a experiência encontrada no terreno pela equipa de activistas da Reencontro, Doroteia Balane descreve de dramática a situação, sobretudo nas zonas rurais, onde as pessoas estão desprovidas de quase tudo, desde a habitação, passando pela alimentação, indo até à falta de informação e crenças à volta da doença.

“Os serviços de Saúde estão distantes das zonas residenciais. As pessoas não têm informação sobre actividade sexual, não existem meios circulantes para levar o doente ao hospital, muitas vezes quando o activista lá vai fica limitado e volta chocado, por causa da situação que encontra, sem poder fazer muito para ajudar o doente”, descreve.

Génese da REENCONTRO

A REENCOTRO, uma organização não governamental de Apoio à Criança Órfã, foi criada em 2002 por um grupo de mulheres. São meninas que cresceram e foram educadas pelas irmãs franciscanas missionárias de Maria, membros da Igreja Católica.

Doroteia Balane

Doroteia Balane

Doroteia Balane, directora de Programas da Reencontro

“Por vários motivos, não foi possível continuarmos nesta vida religiosa, embora nunca tenhamos perdido a nossa vocação. Na sequência desse facto, em 1998, a nossa irmã Olinda Mugabe, directora executiva da REENCONTRO, decidiu abraçar a causa de ajudar às crianças necessitadas e convidou antigas colegas para se juntarem à iniciativa. Concordámos e pusemos mãos à obra e, em 2002, a organização foi oficializada”, explicou Doroteia Balane.

Porquê REENCONTRO? Segundo ela, esta designação pode ser explicada em três dimensões: a primeira, são as antigas meninas franciscanas missionárias de Maria que se reencontram e abraçam juntas uma causa; a segunda, são as crianças órfãs que reencontram novas famílias, (que somos nós) e desfrutam do amor e carinho materno; e a terceira dimensão, somos nós que nos reencontramos com a nossa vocação de caridade e continuamos o nosso projecto de ajudar o próximo, tal como aprendemos nos nossos tempos de meninas, com as irmãs de caridade”, explicou.