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A BAIXA na baixa da cidade de Maputo fervilhava como formigas. As pessoas acotovelavam-se na diminuta passadeira separada por banquinhas de caixas de cartolina. O caminhar das pessoas é quase penoso. Os transeuntes caminhavam como se tivessem "matequenha" nos pés. Tudo para evitar “acidentar” uma bacia de peixe frito ou de bugigangas/quinquilharias dos vendedores informais que perfilam lado a lado nos passeios da baixa.
Naquele dia, eu caminhava pela avenida Guerra Popular em direcção à Estação Central dos CFM. Ao chegar no cruzamento entre a Guerra Popular e a avenida Zedequias Manganhela eis que, vejo um ajuntamento de pessoas. Embora esta “baixa” tradicionalmente registe enchentes constantes, mas aquele amontoado era anormal. Isso chamou-me atenção. Agucei a vista...queria perceber o que se passava ali.
A cada passo que dava, o número das pessoas crescia. Enquanto não alcançava aquela multidão, assaltava-me aquele pensamento de estar a perder aquilo que elas estariam a “assistir” e, pior ainda, tinha a sensação de que na altura em que eu chegasse no ponto, a cena podia estar no fim. Cheguei a pedir asas para voar até junto daqueles mirones. Mas tinha que obedecer a preguiçosa bicha, tudo para não aprontar uma bronca com os vendedores.
Finalmente cheguei. Tinha se formado uma meia-lua. E todos tinham os pescoços, como se de girafas se tratassem, esticados para o centro da roda. Olhavam esbugalhados e falavam alto. Gesticulavam de modo grosseiro para quem estava no interior daquela roda. Parecia que estavam num circo. Pelo cenário acreditei tratar-se de um “batedor” que foi apanhado a “guadjissar” celulares ou bolsas de senhoras. A roda lembrava gente furiosa querendo apedrejar aquela mulher adúltera da Bíblia!
Deitei a vista para dentro daquele semicírculo que tinha juntado tantas almas…e não podia acreditar! Afinal eram duas crianças! Uma com seis e outra com oito. Estavam perdidas na palpitante cidade de Maputo. Acabavam de desembarcar de um “chapa” vindo de Changalane, terra dos avós. Eles estavam em trânsito. Queriam apanhar um outro “chapa” ou machimbombo que os levasse para o Bairro Albazine, arredores da cidade, em casa dos pais. Choravam copiosamente, perante o susto da multidão que vociferava na cara delas. As pessoas “mandavam bocas”, riam-se na cara delas e ridicularizavam-nas por “terem fugido de casa…” Elas apavoradas mantinham-se agarradas uma a outra, com as faces desviadas para o solo. Vestiam roupas encardidas e cansadas, tingidas com aquela terra vermelha de Changalane, distrito de Namaacha.
Fiquei embrutecido com toda aquela cena! Eu não podia compreender de como o desespero que tomara aquelas duas menores podia ser objecto de diversão de tantas almas, desde jovens, adultos, incluindo senhoras! Tanta agitação à sua volta! Levantavam falsas acusações, diziam, por exemplo, que elas teriam fugido de casa....e que aquilo que lhes acontecera seria uma lição para que nunca mais voltassem a pisgar de casa!
Perante aquela situação, e sem que eu pretendesse ser “herói”, pedi “colicença” e entrei para o meio da roda. Agachei-me junto das duas irmãs. Identificaram-se: Felismina e Argentina Alfredo. Tremiam e suavam de frio. Eram 12 horas de calor húmido. Sugeri voluntários para que acompanhassem as crianças a esquadra mais próxima. A 1ª Esquadra da PRM da baixa. A proposta acalorou os ânimos da multidão.
Causa: é que ninguém queria ser “testemunha”! Porque, as testemunhas muitas vezes acabam na cela! Diziam que não queriam “complicações com os cinzentinhos” na esquadra.
Não havendo gente disponível para acompanhar Felismina e Argentina, então eu tinha o dever de fazê-lo. Pedi que alguém fosse comigo. Todos se recusaram. Então quando parti, ouvi alguém dizer, “cuidado esse tio pode vos vender. Vocês conhecem a ele, cuidado!”.
Cheguei na esquadra. Fui atendido pelo oficial do dia, que de tão atarefado em escrever no seu livro de ocorrências, nem sequer se virou para nós. O agente foi lacónico: “já estão entregues”. Nem sequer olhou para mim. Fiquei ali à espera que me perguntassem “isto mais aquilo”, mas nada! Nem sequer me perguntou em que circunstâncias eu as tinha encontrado. Não havia nada a declarar!
Ao sair, por sorte, vejo a chegar um "Land Cruiser" onde foram convidadas a embarcar para o Alto-Maé para se juntarem a outros da secção de “perdidos e achados”.