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Sobrevivência propicia espaço ao trabalho infantil

A CARESTIA da vida, a orfandade e a pobreza no geral vão continuar a obrigar alguns menores à contingência de se envolverem no trabalho infantil, mesmo sendo isso uma prática que devia ser combatida energicamente, visto que constitui uma afronta ao pleno usufruto dos direitos da pequenada.

Na cidade de Maputo, por exemplo, a nossa Reportagem fez uma ronda de modo a ajuizar a actual situação do problema, conversando com alguns petizes que, contra todas as expectativas, estão envolvidos no trabalho infantil.

Como qualquer um pode verificar, é cada vez mais crescente o número de menores ainda em idade escolar que diariamente se fazem à rua, tendo por objectivo a venda de produtos diversos, uma vez que só assim podem sobreviver e garantir a sua existência como seres vivos.

Gildo Cossa, por exemplo, tem nove anos de idade e vive no Magoanine C. Todos os dias este rapaz apanha o “chapa” em direcção à baixa da cidade, onde no lugar de estudar para melhor servir-se a si e ao país dedica-se a venda ambulante de bolachas e biscoitos. É a partida uma infância e juventude comprometidas. Mas oiçamos, de viva voz, o que ele nos diz:

“Vivo somente com a minha mãe, porque os meus pais estão separados. Infelizmente, a mamã não consegue sustentar-me porque não trabalha, para além de que somos sete pessoas na mesma casa”, disse, deixando a nu o drama de sobrevivência a que está condenado.

Ricardo Manjate é outro menor, cuja vida não difere muito da do Gildo. Conta 12 anos de vida e vende produtos frescos na banca da tia, no Mercado da Malanga. Inicialmente ia ao mercado somente para tomar conta da sua irmãzinha de quatro anos de idade.

Todavia, desde o ano passado ele é quem vende, pois a sua tia tem uma outra banca, no mesmo mercado. “Eu sei contar dinheiro e ninguém me pode enganar”, contou o menino na ingenuidade própria da sua idade.

Ricardo não estuda, pois o negócio não lhe deixa tempo para isso. Enquanto isso, Martinha, uma menina de apenas 10 anos, disse ser órfã de pais. Os familiares não têm condições económicas para sustentá-la. Assim sendo, a única alternativa para a sua sobrevivência é igualmente o negócio de esquina.

Exemplos como estes são muitos na capital do país e noutras paragens deste vaso país. E pelo que o cenário nos apresenta não se pode sonhar em ver este problema facilmente resolvido. Porque combatê-lo com medidas administrativas pode ser o mesmo que eliminar uma alternativa de sobrevivência para pessoas desfavorecidas nos seus mais variados grupos.

Entretanto, de acordo com o Ministério do Trabalho, citando a Organização Internacional do Trabalho (OIT), duas em cada três meninas estão a ser exploradas no trabalho em todo o mundo, cujo universo feminino ascende aos 100 milhões de meninas.

A OIT estima que nu mundo ainda que 250 milhões de crianças são escravas de trabalho, das quais 162 milhões estão a trabalhar nas piores formas e perigosas em todo o mundo, vedadas à educação, saúde e às liberdades básicas.

GOVERNO DESENCORAJA PIORES FORMAS DE TRABALHO

MOÇAMBIQUE vai continuar a desencorajar o emprego de crianças nas piores formas de trabalho, sobretudo em actividades reservadas a adultos, face ao visível crescimento de crianças exploradas no trabalho, à semelhança do que tem vindo a registar-se em diferentes cantos do globo, com particular incidência na África subsahariana, Ásia e América Latina.

De acordo com o director nacional de Informação, Planificação e Estatísticas do Trabalho no ministério de tutela, Paulino Mutombene, uma avaliação rápida feita pelo Observatório sobre o Trabalho Infantil em Moçambique revelou que numerosas crianças estão envolvidas em actividades laborais reservadas a adultos.

O mesmo estudo, realizado no país com o apoio do UNICEF, indica que o outro grupo diz respeito àquelas crianças que trabalham nas lides domésticas ou na machamba familiar, onde as tarefas domésticas são consideradas parte do processo de aprendizagem e socialização, em relação às normas sobre os seus futuros papéis e obrigações sociais.

Perante este cenário, a fonte assegurou que o Governo tem-se empenhado no cumprimento das obrigações decorrentes da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança e a Carta da Unidade Africana sobre os Direitos e Bem–estar da Criança, assumindo o cometimento público de contribuir para a eliminação das piores formas do trabalho infantil, adoptando e recomendando a ratificação das convenções relevantes, em particular a supressão das piores formas de trabalho infantil.